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Antes
de mais nada, é necessário saber o que é castigo. Castigo
não é nem pode ser vingança. Se alguém está se vingando, não
está castigando. Mas o castigo, a pena de nossos pecados,
é real e deve ocorrer. Um castigo justo é uma coisa boa, ao
contrário de toda essa pedagogia do "deixa quieto para
não traumatizar" que hoje grassa por aí.
O castigo, visto como pena a pagar pelos nossos pecados, evidentemente
existe. O Inferno nada mais é que um castigo eterno, para
pecados mortais. Alguém que tenha uma só vez cometido um pecado
mortal e não se tenha confessado, a não ser que antes de morrer
tenha uma perfeita contrição, irá para o Inferno, como diria
Frei Damião, "de cabeça pra baixo".
Já as doenças, males físicos, econômicos, morais e financeiros
em geral, podem, e devem, ser vistas como um "castigo".
Como assim?
Simples. Eu sou um pecador, como imagino que a imensa maioria
de vocês. :) Os pecados veniais que cometo têm consequências
temporais, assim como os pecados mortais (em que a consequência
temporal é somada à eterna, sendo que esta é perdoada na absolvição
sacramental). Se eu morrer em estado de graça (ou seja, depois
de me confessar e sem ter pecado mortalmente desde então),
ainda carregarei comigo estas consequências temporais, que
pagarei no Purgatório.
Ora, pagar no Purgatório é infinitamente pior e mais doloroso
que pagar aqui. É por isso que é bom considerar uma doença,
por exemplo, como castigo. Se eu aceitar este sofrimento como
uma pena justa e devida pelos meus pecados, ele passa a ser
visto não como algo absurdo e sem sentido, mas como uma graça
que me é dada por Deus para o perdão dos meus pecados (estou
aqui, aliás, aproveitando que Deus me deu a graça da visita
de um enxame de vespas que me deixou vermelho e inchado...).
Um castigo é justo, e é mais que justo que eu esteja cheio
de picadas de vespa. Eu fiz por merecer muito mais! Quantas
vezes não dei uma esmola pequena, quando poderia ter dado
uma maior? Quantas vezes não olhei demais para onde não deveria
ter olhado, ou pensei coisas que não deveria ter pensado?
Vespa é pouco!
Notem bem que não se trata de uma vingança, mas sim de um
justo castigo. Castigar os culpados é uma obra de caridade,
nos ensina São Pio X em seu Catecismo.
Assim, Deus nos deu o livre-arbítrio (capacidade de escolher
entre dois bens aparentes o que nos parece o melhor), e nos
dá também a possibilidade de aceitar (ou não) como pena devida
os sofrimentos que temos.
Caso aceitemos, ótimo, estamos pagando as penas temporais
de nossos pecados. Mas a chance de pagarmos aqui mesmo os
nossos pecados nos é dada por Deus.
Vejamos por exemplo o caso da AIDS, doença que atinge principalmente
fornicadores, adúlteros, sodomitas e viciados (eu disse principalmente!,
é claro que tem a pobre esposa do adúltero, os hemofílicos,
etc., mas são minoria). Para eles é uma bênção de Deus. Assim
eles têm uma chance de aceitar este sofrimento e santificar-se
em vida, além de serem praticamente forçados a abandonar a
prática pecaminosa que originou a doença.
Não podemos dizer que Deus foi lá e, de pura maldade, vingou-Se
daqueles que desrespeitaram Seus Mandamentos. O que houve
foi que eles pecaram, mas Deus, que é Misericórdia, deu-lhes
a imensa graça de saber que morrerão em breve, além de sofrimentos
que, acolhidos com alegria como graça de Deus, podem abreviar
muito a passagem deles pelo Purgatório.
Castigo não é vingança, castigo é amor e misericórdia.
Segue trecho da Summa Theologica de S. Tomás de Aquino a respeito
do temor a Deus (como toda a Summa, começa com o ponto de
vista errôneo e depois explica a situação e responde às objeções
errôneas anteriormente apresentadas):
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Deus pode ser temido?
SS Q[19] A[1] Obj. 1
OBJ 1: Pareceria que Deus não pode ser temido, pois o objeto
do medo é um mal futuro, como declarado acima (FS, Q[41],
AA[2],3). Mas Deus é livre de todo mal, já que Ele é o Bem
em si. Assim, Deus não pode ser temido.
SS Q[19] A[1] Obj. 2
OBJ 2: Além disso, o medo é oposto à esperança. Nós esperamos
em Deus, logo não podemos temê-lo.
SS Q[19] A[1] Obj. 3
OBJ 3: Além disso, como declara o Filósofo (Aristóteles):
(Rhet. ii, 5), "tememos as coisas pelas quais o mal vem
a nós." Porém o mal vem a nós não de Deus, mas de nós
mesmos, de acordo com Oséias 13,9: "A destruição é tua,
Israel, teu auxílio é (...) em Mim." Assim Deus não deve
ser temido.
SS Q[19] A[1] OTC
Pelo contrário, está escrito (Jer. 10,7): "Quem Vos temerá,
ó Rei das nações?" e (Malaquias 1,6): "Se Eu for
um mestre, onde estará Meu medo?"
SS Q[19] A[1] Corpo
Respondo que, assim como a esperança tem dois objetos que
esperamos obter, um dos quais o próprio bem futuro enquanto
o outro vem pelo auxílio de alguém por quem esperamos obter
aquilo que esperamos, assim também o medo pode ter dois objetos,
um deles o próprio mal do qual foge o homem e o outro aquilo
de onde vem o mal. Assim sendo, do primeiro modo Deus, que
é o bem em si, não pode ser objeto de medo; mas Ele pode ser
objeto de medo da segunda maneira, desde que pode vir anós
algum mal vindo d'Ele ou a Ele relacionado.
SS Q[19] A[1] Corpo
D'Ele portanto vem o mal do castigo, mas este não é um mal
absoluto, porém relativo, e em termos absolutos, é um bem.
Porque já que uma coisa é boa quando ordenada para um fim,
enquanto o mal implica em uma falta desta ordem, aquilo que
exclui a ordem até o fim último é mau, e este é o mal de um
crime. Por outro lado, o mal do castigo é realmente um mal,
enquanto privação de algum bem particular, mas é, absolutamente
falando, um bem, enquanto ordenado para o Fim último.
SS Q[19] A[1] Corpo
Em relação a Deus o mal do crime pode cair sobre nós, se nos
separarmos D'Ele: desta maneira Deus pode e deve ser temido.
SS Q[19] A[1] R.O. 1
Resposta à OBJ 1: Esta objeção considera o objeto do medo
como sendo o mal que o homem teme.
SS Q[19] A[1] R.O. 2
Resposta à OBJ 2: Em Deus podemos considerar tanto a Sua justiça,
em respeito à qual Ele castiga os culpados, e Sua misericórdia,
em respeito à qual Ele nos liberta: Em nós a consideração
de Sua justiça faz surgir o temor, mas a consideração de Sua
misericórdia faz surgir a esperança, o que faz com que Deus
seja objeto de temor e esperança, mas sob aspectos diversos.
SS Q[19] A[1] R.O. 3
Resposta à OBJ 3: O mal do crime não é de Deus como autor,
mas nosso, na medida em que O esquecemos: o mal do castigo,
por outro lado, é de Deus como autor, já que tem o caráter
de um bem, desde que seja algo justo, sendo inflingido a nós
de maneira justa; ainda que originalmente isso seja devido
ao demérito do pecado: assim está escrito (Sab. 1,13-16):
"Deus não fez a morte . . . mas os malvados em obras
e palavras a chamaram para si."
Autor: Carlos Ramalhete
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