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A doutrina do purgatório constitui
um dogma de fé que a Igreja ensina por seu constante magistério.
Vejamos em que consiste.
- O amor a Deus, num cristão,
pode coexistir com tendências desregradas e pecados leves
(ao menos, semideliberadas). Há, sim, em todo indivíduo
humano, um lastro inato de desordem: egoísmo, vaidade, amor
próprio, covardia, negligência, moleza... Tudo isso se acha
tão intimamente arraigado no interior do homem que chega,
por vezes, a acompanhar as suas mais sérias tentativas de
se elevar a Deus e dar a Ele o lugar primacial que Lhe compete.
A psicologia das profundidades ensina que essas tendências
nem sempre são conscientes, mas muitas vezes atuam no nosso
subconsciente ou no inconsciente.
Pecado deixa ferrugem na alma
- Mais: todo pecado (principalmente
quando grave, mas também a falta leve) deixa na alma resquícios
de si ou uma inclinação má (metaforicamente: deixa uma cicatriz,
deixa um pouco de ferrugem na alma, dificultando-lhe a prática
do bem). Com efeito, o pecado implica sempre numa desordem.
Quando, após o pecado, a pessoa se arrepende e pede perdão
a Deus, o Pai do céu perdoa (o Senhor nunca rejeita a contrição
sincera). Mas o amor do pecador arrependido, por mais genuíno
e leal que seja, pode não ser suficiente para extinguir
todo resquício de amor desregrado e egoísta existente na
alma. Em conseqüência, o pecador arrependido recebe o perdão
do seu pecado, mas ainda deve-se libertar da desordem deixada
pelo pecado em sua alma. De fato, quantas vezes se verifica
que, mesmo após uma confissão sincera e contrita, o cristão
recai nas faltas de que se arrependeu!
Isto se deve ao fato de que
ficou no seu íntimo a raiz ou o princípio do pecado. Figurativamente,
pode-se dizer que o cristão arranca a folha e o caule
da tiririca, mas dificilmente arranca também o caroço
ou a raiz da mesma; esta se manifesta dentro em pouco,
através de novos pecados. Para extirpar o princípio do
pecado remanescente, o cristão deve excitar e exercitar
mais intensamente o amor a Deus.
Ora esse estímulo do amor
a Deus se realiza mediante a satisfação ou atos de penitência
que despertem e fortaleçam o amor a Deus no íntimo do
cristão. Notemos bem: a satisfação assim entendida não
deve ser comparada a uma multa mais ou menos arbitrária
imposta por Deus ou a um castigo vingativo; é, antes,
um auxílio medicinal; é também uma exigência do amor do
cristão a Deus, amor este que, estando debilitado, pode
ser corroborado e purificado.
Exprimindo essas verdades
em termos precisos, o Concílio de Trento em 1547, frente
às objeções protestantes, fez importantes declarações.
Rejeitou, por exemplo, a sentença segundo a qual "a
todo pecador penitente que tenha recebido a graça da justificação,
é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a
obrigação de pena eterna, que não lhe fica pena temporal
a padecer ou neste mundo ou no outro, no purgatório, antes
que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos
céus" (DS 1580).
O Concílio de Trento declarou
ainda: "No tocante à satisfação, é de todo falso
e alheio à Palavra de Deus afirmar que a culpa nunca é
perdoada. Com efeito, nas Escrituras Sagradas encontram-se
claros e famosos exemplos que... refutam esse erro com
plena evidência" (DS 1689). A culpa é perdoada sim.
Mas a Escritura mostra que, mesmo depois de perdoada,
o Senhor Deus exige satisfação ou reparação da ordem violada
pelo pecado.
Esta exigência é facilmente
compreensível, se levarmos em conta o seguinte: quem rouba
um relógio, pode pedir perdão do respectivo proprietário,
mas este exigirá que a ordem seja restaurada ou que o
relógio volte ao seu dono. Da mesma forma, quem difama
caluniosamente o seu próximo, pode pedir e receber o perdão
deste, mas a pessoa difamada exigirá que se restaure a
fama a que tem direito.
Também os pecados meramente
internos (de pensamento e desejo) alimentam ou suscitam
desordem interna no pecador, de modo que este precisa
de restaurar ou introduzir a ordem em seu íntimo, mediante
atos de penitência ou renúncia. Tenhamos em vista os seguintes
casos: a) Davi, culpado de homicídio e adultério, foi
agraciado ao reconhecer o delito; não obstante, teve que
sofrer a pena de perder o filho do adultério (cf. 2Sm
12,13s); b) Moisés e Aarão cederam à pouca fé em dados
momentos da sua vida; por isso, foram pelo Senhor privados
de entrar na Terra Prometida, embora não haja dúvida de
que a culpa lhes tenha sido perdoada.
Em outros casos, o perdão
é estritamente associado a obras de expiação. Assim o
profeta Joel, com a conversão do coração, exige jejum
e pranto (cf. Jl 2,12s); o velho Tobit ensina a seu filho
que a esmola o libertará de todo pecado e da morte eterna
(cf. Tb 4,11s); algo de semelhante é anunciado por Daniel
ao rei Nabucodonosor (cf. Dn 2,24).
Desordem para o próximo e
o mundo
- Levemos em conta também que,
mesmo após haver recebido o perdão do pecado, o homem fica
responsável pela desordem que o pecado geralmente acarreta
para o próximo e para o mundo. As palavras e as ações de
um homem têm, freqüentemente, dimensões muito mais amplas
do que as do momento presente; seus efeitos escapam às previsões
e ao controle de quem as produz. Não é raro que, no decorrer
de sua peregrinação terrestre, o homem deixa marcas de sua
atividade, as quais continuarão atuantes mesmo depois da
morte do respectivo sujeito.
- A justa satisfação pode ser
prestada pela criatura ainda na vida presente (processo
este que é normal e deveria ser considerado por todos os
cristãos como programa de vida aqui na Terra), quando o
penitente então se empenha, corajosamente, por se livrar
de suas más tendências e tornar puro o seu amor a Deus e
ao próximo. Se não o consegue neste peregrinação (por motivo
de covardia, tibieza ou outro qualquer), compreende-se logicamente
que deverá chegar a essa pureza na vida póstuma, antes de
entrar na visão face a face de Deus.
Nessa hora, a criatura se arrependerá
por Ter condescendido com a moleza e a indefinição; a alma
terá consciência de que foi cercada pelo amor de Deus no decorrer
de toda a sua vida e o ignorou ou esbanjou (amarga consciência).
Essa verificação não poderá deixar de lhe ser dolorosa, principalmente
porque a alma perceberá que, por causa de sua indefinição
na terra, será adiada ou postergada a sua entrada no gozo
definitivo de Deus. Além disso, lhe será duro averiguar que
faltou ao encontro marcado com Deus justamente após a morte,
quando os fiéis mais fome e sede têm de Deus.
Aprofundando ainda essas idéias,
podemos dizer: é devagar ou lentamente que o homem se torna,
segundo todas as dimensões do seu ser, aquilo que ele já é
no núcleo de sua personalidade. Em outros termos: uma decisão
generosamente abraçada pela vontade do homem não costuma penetrar
e mover instantaneamente todas as camadas da personalidade;
ela muitas vezes encontra, no fundo da consciência ou também
no inconsciente do indivíduo, uma resistência mais ou menos
tenaz, resistência este que provém de hábitos passados do
sujeito. É essa resistência que deve ser vencida, de modo
a exigir da alma o empenho cada vez mais energético do seu
amor, a fim de que este possa penetrar em toda a respectiva
personalidade.
Fala-se de fogo do purgatório;
todavia, isso não é senão uma metáfora, para designar o sofrimento
decorrente do adiamento da visão face a face. Paradoxalmente,
o purgatório é também um estágio de vida cumulado de alegria...
Com efeito, esta jorra da consciência que a alma tem, de que
pertence ao amor de Deus de modo irrepreensível. Ela sabe
que é o amor que a purifica e que nela cresce, a fim de poder
penetrá-la por completo. Deve-se mesmo dizer que a alma no
purgatório não deseja evitar este estado, pois reconhece que
o mesmo é um Dom da misericórdia de Deus, sem o qual poderia
atingir a sua consumação.
Eis a autêntica noção de purgatório.
Vemos que é algo de muito lógico, fundado na Escritura e aprofundado
pela tradição da Igreja. Possam os fiéis tomar consciência
sempre mais viva da necessidade de perfazer seu purgatório
na presente vida mesmo!
(Pesquisado no
livro "Católicos Perguntam" - Dom Estêvão Bettencourt,
OSB)
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