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"O Senhor alimentou o seu
povo com a flor do trigo e com o mel do rochedo o saciou"
(Sl 80,17).
Sim,
Deus alimentou com o maná o seu povo peregrino, à caminho
da terra prometida. Podemos ver quem é este povo à caminho,
podemos entender qual é a terra prometida, mas não é tão simples
entender bem o que significam as palavras de Cristo: "Não
foi Moisés que vos deu o pão vindo do céu, mas meu Pai é que
vos dá o verdadeiro pão procedente do céu, pois o pão de Deus
é o que desce do céu e dá a vida ao mundo. Eu sou o pão vivo
que desceu do céu; se alguém comer deste pão viverá eternamente.
O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo...
pois minha carne é verdadeiramente comida e meu sangue é verdadeiramente
bebida" (Jo 6,32-54).
Sim!
Somos povo peregrino, Igreja militante, à caminho da terra
definitiva. Isto é fácil de entender. Como entender, porém,
que o pão vivo, o nosso maná, é verdadeiramente o corpo de
Cristo? Quando a vista o tato e o gosto se põem a avaliar
a presença de Cristo na Eucaristia, falham totalmente: vêem
aparências externas; percebem a cor, o gosto, o odor, a forma,
a quantidade. Falta-lhes o dado da fé1, que se
apoia nas palavras de Jesus e na Tradição da Igreja (o legado
dos ensinamentos dos apóstolos que se traduziu na vivência
dos primeiros cristãos).
A Igreja
ensina que Cristo se torna presente no pão e no vinho pela
conversão de toda a substância do pão e do vinho no corpo
e sangue de Cristo. Ficam as aparências sim, mas a substância,
o ser, aquilo que a coisa é aos olhos do Criador2,
passa a ser a substância do corpo e do sangue de Cristo. É
por isso que a Igreja chama de Transubstanciação, o milagre
à que assitimos durante a consagração. São necessários alguns
conceitos de Filosofia e Teologia para conseguir uma pequena
centelha de entendimento. Contentemo-nos com a fé que nos
diz que Deus, que pode criar e aniquilar, pode também transformar
uma coisa em outra.
Cristo
está presente na Sagrada Eucaristia com o seu Corpo, com o
seu Sangue, com a sua Alma e a sua Divindade. Vivo! Inteiro!
Em cada mínima migalha de pão ou gotícula de vinho (por isso
muitos preferem comungar direto na boca, para que não se perca
uma só partícula. Como estamos cuidando da forma com que comungamos?)
O sabemos bem, nós que tivemos a honra de cuidar do paninho
usados pelos sacerdotes para limpar a patena e secar o cálice
- o sanguíneo - repetindo por três vezes, com reverência e
carinho, o ato de molhá-lo em água limpa e derramar a água
em um vaso com flores!
Difícil
entender o que Cristo fez? Não, se pensamos nos artifícios
à que recorremos quando temos que partir, deixando alguém
a quem amamos. Deixamos fotos, pedaços de cabelo, cartas,
folhinhas e pétalas dentro de livros. O que faríamos se pudéssemos
deixar um pedaço de nós mesmos, vivo? E se, como Deus que
tudo pode, pudéssemos ir e ficar ao mesmo tempo? Pois é, Ele
pode, Ele quer, e assim o faz.
Como
nos trinta anos de sua vida com Maria, permanece oculto. "Prisioneiro
do amor"3. Quando te aproximares do sacrário,
pensa que Ele há vinte séculos te espera. Aí o tens: É Rei
dos Reis, e Senhor de Senhores. Está escondido no pão. Humilhou-se
até esse extremo por ti!4
Como
cuidamos dEle em nossas igrejas? Passamos por elas sem visitá-lo?
Como cuidamos dos objetos litúrgicos que entram em contato
com Ele? Como é que o tratamos no sacrário? Como nos vestimos
para ir ter com nosso Rei? Como é que o tratamos na comunhão,
este momento tão especial? Temos a intimidade de quem o conhece
pelas passagens do evangelho, pela oração, e pelos encontros
assíduos na Eucaristia? Fazemos de nossa caminhada até o altar,
e desde o altar, após recebermos a hóstia, uma verdadeira
procissão? Reservamos um tempo suficiente para esta conversa
íntima, mesmo após a Missa, sabendo que Ele permanece em nós
até que nosso organismo deteriore as espécies sacramentais?
Vamos
recorrer às palavras de São Tomás de Aquino após a comunhão,
abraçados a nós mesmos, como que abraçando a quem carregamos
conosco, aprofundando na adoração a Ele:
ADORO-VOS COM DEVOÇÃO, DEUS ESCONDIDO,
QUE SOB ESTAS APARÊNCIAS ESTAIS PRESENTE.
A VÓS SE SUBMETE MEU CORAÇÃO POR INTEIRO,
E AO CONTEMPLAR-VOS SE RENDE TOTALMENTE.
A VISTA, O TATO, O GOSTO, SOBRE
VÓS SE ENGANAM,
MAS BASTA O OUVIDO PARA CRER COM FIRMEZA.
CREIO EM TUDO O QUE DISSE O FILHO DE DEUS,
NADA MAIS VERDADEIRO QUE ESTA PALAVRA DE VERDADE.
NA CRUZ ESTAVA OCULTA A DIVINDADE,
MAS AQUI SE ESCONDE TAMBÉM A HUMANIDADE;
CREIO, PORÉM, E CONFESSO UMA E OUTRA,
E PEÇO O QUE PEDIU O LADRÃO ARREPENDIDO.
NÃO VEJO AS CHAGAS COMO AS
VIU TOMÉ,
MAS CONFESSO QUE SOIS O MEUS DEUS.
FAZEI COM QUE EU CREIA MAIS E MAIS EM VÓS,
QUE EM VÓS ESPERE, QUE VOS AME.
Ó MEMORIAL DA MORTE DO SENHOR!
PÃO VIVO QUE DAIS A VIDA AO HOMEM!
QUE A MINHA ALMA SEMPRE DE VÓS VIVA,
E QUE SEMPRE LHE SEJA DOCE O VOSSO SABOR.
BOM PELICANO*, SENHOR
JESUS!
LIMPAI-ME A MIM IMUNDO, COM O VOSSO SANGUE,
SANGUE DO QUAL UMA SÓ GOTA
PODE SALVAR O MUNDO INTEIRO
JESUS, A QUEM AGORA CONTEMPLO
ESCONDIDO,
ROGO-VOS QUE SE CUMPRA O QUE TANTO ANSEIO:
QUE AO CONTEMPLAR-VOS FACE A FACE,
SEJA EU FELIZ VENDO A VOSSA GLÓRIA. AMÉM.
(*)Obs.: baseado na lenda na
qual os pelicanos ressuscitavam seus filhotes rasgando o próprio
peito e dando-lhes o próprio sangue.
1"Falar com Deus", Francisco Fernadez
Carvajal.
2Idem.
3Josemaria Escrivá de Balaguer.
4"Caminho", Josemaria Escrivá de Balaguer,
ed. Quadrante.
Autor: Maurício
V. de Uzêda
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