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PRÓLOGO
A experiência
nos mostra que, geralmente falando, somente prestam à Igreja
grande bem aqueles que professam a perfeita castidade: os
sacerdotes e as religiosas, as jovens que ingressam nas Sagradas
Congregações, os santos leigos que se põem ao trabalho da
promoção das boas obras.
De maneira
que farão bem os confessores que são imbuídos pelo zelo da
religião em usar de sua diligência para ensinar aos jovens
de ambos os sexos que cultivam a piedade e levam com docilidade
uma vida fiel aos mandamentos divinos quão grande bem é a
perfeita castidade. Exortem-nos à observância da castidade
perfeita, se a tanto os virem inclinados, pois alcançarão
mais facilmente a perfeição cristã e servirão com maior fruto
ao bem da religião.
Isto
porém os confessores não conseguirão realizar a não ser que,
depostos por completo todos os preconceitos que o vulgo tem
contra esta virtude, contemplarem o zelo que os Santos Padres
da Igreja usaram para promoverem a perfeita castidade, a tal
ponto que praticamente todos escreveram livros a este respeito;
e, ademais, a não ser que também estes mesmos confessores
busquem eles próprios esta virtude com grande amor, e se esforcem
por levar uma vida inteiramente angélica.
A carne
gera a carne; o espírito, espírito; os anjos não se procriam
senão a partir dos anjos.
Ora,
por ser isto coisa de imensa importância para a glória de
Deus e para a santificação das almas; e porque também por
parte de alguns confessores existem preconceitos danosíssimos
nesta matéria, quero reproduzir aqui uma carta que publiquei
em outra ocasião sobre o celibato.
A CARTA SOBRE
O CELIBATO
Meu
prezado amigo,
Admiro-me
ter ouvido de tua própria pessoa que te consideras apóstolo
da mais bela, da mais esplêndida entre as virtudes cristãs,
que é a santa virgindade, e, em geral, a perfeita castidade,
embora dizes também ter boas razões para dizer que talvez
seria melhor deixar que cada um a abrace ou não, como mais
lhe agradar, especialmente nos tempos de hoje pouco propícios,
ou melhor, inimigos de tudo quanto é bom e de todo objetivo
sagrado.
Quero
confessar-te a verdade, e dizer-te que estou bastante surpreso,
porque esta tua duplicidade, e ainda mais, toda a argumentação
que usas para justificá-la mais parecem em dissonância com
o teu costumeiro bom senso.
Mas
é, por outro lado, este bom senso que me dá a esperança de,
com apenas esta pequena carta, poder endireitar certas idéias
que, perdoa-me, estão um tanto quanto tortas.
Que
a virgindade e o celibato são virtudes muito louváveis e que
devem ser preferidas ao matrimônio, tu o sabes, é uma verdade
da qual nenhum católico pode duvidar, tendo definido o Concílio
de Trento:
"Se
alguém disser que o estado conjugal deve antepor-se ao estado
de virgindade ou de celibato, ou não ser coisa melhor e
mais feliz permanecer na virgindade ou no celibato que unir-se
em matrimônio, seja excomungado".
Devemos,
portanto, como católicos, concordar todos em reconhecer este
dogma de fé, e crer nele como em todos os outros que nos ensina
a Igreja.
Semelhantemente,
não há dúvidas quanto ao fato de que a perfeita castidade
é um conselho evangélico colocado em prática por uma infinidade
de santos que pelas suas virtudes heróicas mereceram as honras
dos altares;enquanto que não saberíamos dizer, tirando o caso
dos mártires, quais fossem os santos canonizados que não cultivaram
esta virtude no estado virginal ou de viúvos.
A este
respeito e a respeito de todas as outras coisas que poderiam
ser ditas em louvor da perfeita castidade não é necessário
que nos detenhamos, pois nisto estamos em perfeito acordo.
A questão está em ver se é oportuno aconselhar aos outros,
especialmente à juventude, o estado de continência. Tu achas
que é melhor deixar que cada um siga a própria inclinação,
e isto por diversas razões que julgas boas. Ora, haverei de
comentar estas razões mais tarde; vejas agora se eu sei provar-
te, como se diria, a priori, que te colocas mal.
Se este
conselho não deve ser dado, por que é dado pelo Santo Evangelho?
E por que São Paulo o dava assim tão geralmente que, se a
coisa fosse possível, teria desejado que este conselho fosse
aceito por todos os cristãos:
"Quero, de fato" -
diz São Paulo - "que todos vós sejais como eu"?
(ICor. 7, 7).
"Todos
vós", "todos vós", gostaria que fôsseis continentes,
como eu o sou, "todos vós", cristãos de Corinto:
e estes, ademais, não se diferenciavam dos cristãos de todo
o mundo.
E por
que promovia a prática da perfeita castidade com tanto ardor
a ponto de ser esta, senão a causa, pelo menos a concausa
de seu martírio, como se lê na história da Igreja?
E por
que os sucessores imediatos dos Santos Apóstolos, e depois,
todos os Padres e Doutores da Igreja foram tão fervorosos
pregadores deste assunto e todos os principais dentre eles
escreveram livros inteiros para exortar os fiéis a abraçarem
tão exímia virtude? Vejas São Cipriano, São Gregório Nazianzeno,
Santo Atanásio, São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, São Jerônimo,
Santo Agostinho; poderias desejar mais ardentes e mais valorosos
exortadores para inflamar o povo cristão ao amor desta virtude?
E no entanto viviam em tempos em que se poderiam ser ditas
supérfluas tais exortações porque, como podes ver na história,
esta virtude era para os fiéis um verdadeiro entusiasmo. De
fato, quando lês que apenas na Oxorinca, cidade não das maiores
do Egito, havia vinte mil virgens e dez mil monges, pode-se
conjecturar que número haveria em todo o mundo cristão de
cultores da vida casta. Não obstante isso os Santos Padres
não julgavam coisa inoportuna que com as suas pregações e
com os seus livros aumentassem mais ainda aquele ardor sagrado
que hoje em dia nos parece já excessivo por si mesmo.
Ora,
portanto, acreditava o divino autor do Envangelho, acreditava
São Paulo, os homens apostólicos acreditavam, os padres e
os doutores da Igreja acreditavam que a perfeita castidade
fosse algo para ser aconselhado assim calorosamente; e tu,
entretanto, meu prezado amigo, julgas em tua perícia que mais
se deve crer que a melhor coisa é não dar palavra a respeito,
nem dar este santo conselho a ninguém?
Paraste
para refletir sobre a guerra que a esta virtude fazem as pessoas
do mundo? Não há mal que dela não digam, e que, além disso,
publiquem por escrito. E poderá ser jamais um bem que, enquanto
a virtude mais bela e mais esplêndida é assim tão geralmente
e impunemente caluniada, e enquanto se fomenta contra a mesma
a aversão e o desprezo, aqueles que a conhecem e lhe conhecem
os seus predicados divinos e a injustiça das imputações que
lhe são feitas fiquem em silêncio, nem sequer uma voz se levante
em sua defesa e cada um se guarda de comentar-lhe o esplendor
e o mérito e de aconselhar a sua prática à juventude? Parece-te
isto uma boa prudência? Ou podes ainda duvidar do teu engano?
Vamos
agora comentar as razões que consideras boas, as quais, entretanto,
por estarem em oposição a uma verdade manifesta, não podem
ser elas mesmas senão más, isto é, sofísticas e falsas.
Tu sublinhas
com muita ênfase a dificuldade de conservar perseverantemente
esta virtude. Parece que se deveria dizer que és do número
daqueles que julgam a continência uma virtude reservada a
poucas almas privilegiadas, fora das quais nenhuma pessoa
pode aspirar a ela sem culpa de presunção, e sem manifesto
perigo de ruína.
Mas
eu devo observar ser isto uma fina arte do demônio, da qual,
cada vez que lhe convém, o mundo se serve. Não sabendo nem
sequer o demônio como esconder os predicados sobrehumanos
da santa castidade, faz parecê-la aos homens uma virtude tão
alta e que tanto excede as forças da fraqueza humana que a
ela não podem aspirar senão os incautos e os presunçosos;
e também o mundo, seu inimigo jurado, com a mesma boa fé do
demônio, à sua semelhança, se mostra às vezes admirado com
a sublimidade desta virtude, desde que, todavia, fiquem os
homens dissuadidos de abraçá-la. Nada importa ao demônio e
nada importa ao mundo que os cristãos tenham em abstrato grande
estima da continência, como o tinham os gentios que diziam
maravilhas das Vestais, assim como dos cristãos, desde que
esta virtude fosse proibida na prática, como de fato era proibida
por lei no mundo antigo.
E é
verdadeiramente uma surpresa ver homens inteligentes, como
tu também és, com a alma tão presa a este preconceito como
a uma dificuldade quase insuperável, que falam da vida cristã
como de um dom de Deus que devesse ser comparado em pé de
igualdade, ou pouco menos, com o dom de falar em línguas desconhecidas
e de dar vista aos cegos de nascença.
Vejamos
se nos entendemos, meu prezado amigo: se a ti parece dificílima
a prática da castidade perfeita para a fraqueza humana abandonada
a si mesma, estamos de perfeito acordo, e se tu dizes ser
dificílima, eu acrescento que é impossível. Mas aqui não estamos
falando do poder que tenha a fraqueza humana deixada a si
própria; estamos falando do poder que tem sobre ela a graça
onipotente de Deus. Ora, vejas que coisa totalmente diferente:
tu aceitarias se eu te dissesse que a graça onipotente de
Deus torna fácil à fraqueza humana aquilo que sem ela seria
dificílimo e impossível? Pois bem, não apenas eu, mas tu também
comigo, junto com todos os demais católicos, dizemos que uma
vida perfeitamente casta não pode senão ruir sem a ajuda daquela
graça, que Deus dá abundantemente a quem a pede, e vive com
as cautelas necessárias para conservá-la.
Superada
a dificuldade da fraqueza humana, eu te rogo que observes
se são poucos e raros no mundo aqueles que de fato são obrigados
a viver em perfeita continência. Tu talvez dirás que esta
é uma virtude livre, que ninguém é obrigado a praticá-la,
exceto aqueles que, por terem feito um voto especial de castidade,
ou por uma lei eclesiástica, à qual se submeteram voluntariamente,
tenham renunciado ao estado de matrimônio; e, enquanto permaneceres
no domínio do abstrato, dizes otimamente. Mas se desces ao
terreno da realidade dizes muito mal. Duvidas? Então, anuncia
a todos os jovens que completarem seus quatorze anos, e a
todas as jovens que completarem os doze, que todos eles estão
livres para se casarem. Não os farias rir? Os jovens deverão
esperar, geralmente falando, os vinte e cinco anos, muitos
os trinta e mesmo mais; as jovens os dezoito, os vinte, etc..
E anuncia também que estão livres para se casarem todas as
centenas de milhares que estão no serviço militar, todos os
deformes e enfermos, todos os desempregados incapazes de ganhar
um pedaço de pão para matarem a fome, todas as moças deformadas,
doentes, sem nenhuma habilidade útil, sem um tostão de dote.
Diga a todos estes que estão livres para se casarem. Muitos
irão rir como os jovens, e não poucos se mostrarão como que
ofendidos por um insulto ou desprezo. No campo da abstração
são todas pessoas que podem se casar; mas no terreno da realidade
são todas pessoas que devem observar continência perfeita,
e nada menos que sob pena de pecado mortal; porque não tendo
eles possibilidade ou ocasião de matrimônio, devem permanecer
no estado de celibato e violando a castidade mesmo que apenas
com o pensamento cometeriam uma culpa grave, como nos ensina
a moral cristã mais elementar.
Terias
curiosidade de saber quantas sejam na Província de Gênova
aqueles que em abstrato podem se casar, mas que na realidade
devem permanecer no celibato? Eis a estatística de 31 de dezembro
de 1857. A população total é de 313.402 indivíduos. Entre
estes os cônjuges são 103.962; os solteiros e as viúvas 210.610,
isto é, mais de dois terços. É verdade que destes devem ser
descontados aqueles que estão abaixo da idade da puberdade;
mas entende-se que o número das crianças abaixo da puberdade
não chega a um terço da população total. E mesmo que chegasse,
mais da metade dos habilitados ao matrimônio ficariam de fato
obrigados à continência. E é notável também que muitos dos
casados se somem a este número, isto é, todos aqueles que
por necessidade de família, por enfermidade, por maus tratos
ou desordens do outro cônjuge, vivem separados, e destes não
tenho medo de errar se afirmo que hoje em dia são muitos.
Depois, não é de se supor que as estatísticas das outras províncias,
reinos ou impérios difiram sensivelmente da estatística da
Província de Gênova.
Ora,
bem, uma virtude para a qual na realidade está obrigada uma
tão grande parte da população, poderá ser dita virtude
tão difícil e quase impossível de se guardar senão por poucos
privilegiados que tenham obtido de Deus algum dom extraordinário?
Como teria então Deus provido a todos os outros pobrezinhos
que de fato devem também viver em continência e sob pena de
uma pequena bagatela que é um pecado mortal, a qual merece
por justiça nada menos do que um inferno eterno?
A suposição
de que a castidade perfeita seja assim tão difícil de se guardar,
e que seja um dom extraordinário de Deus, não te parece um
gravíssimo preconceito, sumamente injurioso à providência
divina?
Ora,
não duvido que o teu bom senso começará agora aos poucos a
perceber que a castidade perfeita é virtude que se possa abraçar
por quem quer que o queira, suposta a graça divina, a qual
por sua vez pode ser obtida por quem quer que a peça, e suposta
a prática dos meios necessários para tanto, como é a custódia
dos sentimentos, a fuga das diversões perigosas, do ócio,
etc., e que por isso mesmo trata-se de uma virtude que pode
ser aconselhada a quem quer que seja capaz de ter a boa vontade
para tanto, assim como, desde que alguém possa retribuir com
benefícios os males recebidos, a qualquer pessoa pode-se aconselhar
que faça esta retribuição.
Mas tu me
dirás ainda que talvez eu não poderei bem aquelas palavras
do Evangelho:
"Não todos entendem esta
palavra".
Se tu
duvidasses ainda que eu não as tivesse ponderado bem, eu te
devolveria a acusação tirando-lhe, porém, o talvez. Certamente
é verdade que "nem todos entendem esta palavra",
isto é, que não são todos que abraçam a vida casta. E isto
é verdade não só porque o disse Cristo, mas porque é um fato
que nos é ensinado pela contínua experiência. Resta porém
que se veja se "nem todos entendem" porque "não
o podem entender", o que é o mesmo que perguntar se todos
não abraçam a vida casta porque "não podem" ou porque
"não querem". Tu, arbitrariamente, quiseste subentender
o "não podem", e é por isso que aquele texto do
Evangelho te pareceu um gravíssimo argumento; eu, porém, subentendo
o "não querem", juntamente com Cornelio a Lapide,
o qual traz uma fila de referências tiradas dos Santos Padres
para mostrar que todos assim o subentenderam. E, entendido
o texto evangélico neste sentido, o teu argumento não vale
mais nada. Voltando à comparação acima citada, nem todos retribuem
com benefícios os males recebidos. Mas por que? Talvez porque
não poderiam? Não, certamente, mas sim porque não o querem.
A ti
porém parece uma imprudência aconselhar a todos a castidade
perfeita, e o pareceria também a mim se se tratasse de aconselhá-la
a todos em particular, isto é, a cada indivíduo de um ou de
outro sexo indistintamente, como me parece uma imprudência
aconselhar a qualquer um a quem se fizesse uma maldade que
imediatamente devolvesse o mal recebido com um benefício.
Este conselho eu o daria apenas a quem visse bem animado por
sentimentos de uma viva caridade; e exortaria a todos os outros
a afastarem-se do ódio, e a benfazer ao inimigo desde que
ele se encontrasse num estado de verdadeira necessidade de
benefício e em uma situação tal em que fazê-lo se tivesse
tornado uma exigência estrita da caridade. Da mesma maneira,
eu aconselharia a castidade perfeita apenas a aqueles que
soubesse possuírem boas disposições; e a todos os outros diria
simplesmente que se abstivessem do pecado, nem oporia uma
palavra contra se visse que quisessem tomar o estado de matrimônio.
Eis, portanto, a quem gostaria de aconselhá-lo, a todos aqueles
jovens de um ou de outro sexo que demonstrassem uma índole
santa, regrada, que dessem boas esperanças de conseguir conservá-la.
Além do mais, aconselhando-a, gostaria que se fizessem para
tanto orações particulares para obter a luz de Deus sobre
o que seria melhor para eles, e não gostaria nunca que fizessem
voto, sequer temporário, sem a aprovação de seus diretores
espirituais. Parece-te que assim fazendo eu pecaria por imprudência?
Mas
os tempos, tu dizes, os tempos são adversos. Não vês, dizes,
coisa que nunca se viu em todos os séculos, que em diversos
lugares a lei está abolindo a profissão religiosa?
Lembra-te,
porém, dos primeiros séculos da Igreja. Estavam então em vigor
leis que condenavam o celibato
diretamente em si mesmo, e os costumes dos gentios não podiam
ser melhores do que aqueles dos nossos cristão degenerados.
Pelo que é claro que naquela época estava-se pior, e que os
tempos deviam ser adversos ainda mais do que hoje o são. Isto
não obstante, como foi observado, primeiro os Apóstolos, depois
os seus discípulos, e finalmente os primeiros Padres promoviam
com imenso zelo a perfeita continência. Isto quer dizer, portanto,
que aqueles santos homens não ficavam com medo dos tempos
adversos.
Mas
esta observação aos tempos que fizeste de passagem é justamente
a oportunidade que eu esperava para poder terminar de te deixar
persuadido que também tu tens que tomar ao peito os interesses
da mais bela entre as virtudes, de te tornares um ardoroso
promotor da mesma, quase um apóstolo. Aos tempos, aos tempos,
tu me dizes. Vamos dar ainda uma olhada nos tempos.
Os tempos
precisam que se ordene um maior número de sacerdotes, dos
quais em todo lugar se percebe a deficiência, já que por culpa
dos tempos é muito maior o número daqueles que anualmente
morrem do que o número dos que anualmente são ordenados. E
os tempos precisam de um número maior de sacerdotes, para
que os povos sejam melhor cultivados com a pregação e com
a administração dos Sacramentos; e têm também uma particular
necessidade de que se multipliquem os missionários apostólicos
nos países infiéis, onde pelas comunicações tão facilitadas
seria agora tão mais fácil do que antes estender a luz do
Santo Evangelho.
Os tempos
têm necessidade de um grande número de irmãs de caridade,
do Sagrado Coração, de São José, etc., etc., as quais hão
de cultivar inumeráveis escolas, educandários, hospitais,
e também prisões e patíbulos; e que, além do mais, devem p
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restar
ajuda aos missionários que se afadigam na conversão dos gentios
em todas as partes do mundo.
Os tempos
necessitam de cristãos e cristãs fervorosos, que formem e
mantenham em todo lugar boas associações, as quais se possam
opor às más que em todo o lugar se estabeleceram e mais do
que nunca prosperarem; que promovam em todo lugar as obras
de religião, de caridade, onde quer que hostilizadas pelo
espírito incrédulo e subversivo do século.
Colocarias
em dúvida que os tempos tenham todas estas necessidades? Mostrarias
que não conheces em nada os tempos, merecerias de ser chamado
de homem de séculos passados, e contado entre os mortos. Ora,
bem, para todas estas necessidades não se requerem homens
e mulheres todos prontos e dispostos a viverem em celibato?
Para
os sacerdotes seculares e regulares, para as freiras dos múltiplos
institutos religiosos tu não terás dificuldades; mas talvez
tu as tenhas para os seculares, parecendo-te que também os
casados possam fazer todo o bem que é feito pelos que vivem
no celibato. Entretanto, se tu o perguntasses a São Paulo,
ele te responderia que não; porque os casados
"têm o coração dividido"
entre o espírito e a carne. Ademais,
mesmo deixando de parte no momento a sua autoridade, observa
que coisa nos ensina a grande mestra que é a experiência.
Os jovens casados, falo em geral, não me referindo às raras
exceções, procuram colher o quanto podem as flores da idade;
os casados maduros, consolidar os interesses materiais da
família; os velhos não querem depor este hábito, e depois
de terem gasto a vida a serviço das paixões e do mundo, têm
agora pouca inclinação e vigor para zelar com muita eficácia
pelos interesses da religião e da verdadeira caridade cristã.
Repito que não tenho a intenção de não citar, nem portanto
de não reconhecer, as raras exceções. Tal é o que nos ensina
uma experiência diária, invariável.
Se tu,
portanto, não fechas os olhos para não ver quanto nos continua
ensinando esta mestra, deves reconhecer que, geralmente falando,
são os celibatários que levam uma vida santa aqueles que se
preocupam em formar e manter aqui e ali as boas associações,
e em promover as boas obras, gastando nelas os seus estudos,
tempo e dinheiro.
Isto
é também um fato. E se quiseres fazer um pouco de filosofia
sobre o "coração dividido" de que fala São Paulo,
entenderás que a coisa não poderia ser diferente.
E agora
não te parece que andarias verdadeiramente errado se quisesses
permanecer nas tuas dúvidas? Mas, e a perseguição que moveria
o mundo aos promotores da continência, não deve também ser
computada no cálculo? Eu imaginaria que estas palavras te
teriam saído da pena para o papel em um momento de distração.
O que terias tu a temer do mundo? Alguns risos, censuras,
desaprovações, piadas e nada mais. Ou ficarias com medo? Julgar-te-ia
mal quem te supusesse dotado de uma alma tão pequena. E ademais,
se não quiseres ter nenhuma contradição, ou perseguição, como
quiseres chamá-la, cuida-te de não realizar jamais sequer
uma sombra de bem, porque de outra forma, mesmo evitando todos
os demais bens, não evitarias aquela perseguição, porque a
quem quer que faça o bem o demônio procura.
Vamos
portanto colocar um fim às dúvidas e às objeções. Ouve, em
vez disso, como eu suponho que deva ser promovida a bela virtude
nos nossos dias.
Em primeiro
lugar os pregadores devem mostrá-la ao povo em seu valor e
seu mérito, para que não permaneça virtude quase inculta e
ignorada pela pia juventude de ambos os sexos. Diria-se que
certos pregadores trocam a virtude pelo vício, observando
para ela as palavras de São Paulo de que "nem se nomeie
entre vós", que o Apóstolo havia, no entanto, reservado
para o outro. Nunca, de fato, nunca uma palavra sobre a virgindade,
sobre o celibato. Assim não costumavam fazer os primeiros
pregadores da Igreja, e Santo Afonso de Ligório queria que
cada missão se concluísse com um discurso às jovens sobre
a virgindade. Examina, a este respeito, a "Selva de Matérias
para Pregação".
Em segundo
lugar deveria-se promover a comunhão freqüente, ou melhor,
a diária. Porque, além de se saber pela fé que ela é o
"trigo dos eleitos,
e o vinho do qual
germinam as virgens",
é demonstrado por uma constante
experiência que os jovens de um e de outro sexo, quando se
dão a freqüentar muito a Santa Comunhão, encontram,-se, sem
saber eles o porquê, alheios a toda a intenção de matrimônio.
O meio mais eficaz para buscar na Santa Igreja virgens em
grande número seria certamente promover na juventude a freqüência
à mesa eucarística.
A esta
freqüência vai infalivelmente unida uma marcada devoção a
Maria Santíssima, que como rainha das virgens quer ordinariamente
tais os melhores de seus devotos.
Em terceiro
lugar deveria-se difundir aquelas obras que dão uma justa
idéia da bela virtude, encorajam a praticá-la, e ensinam o
modo de custodiá-la com cautela. Entre estas obras deveria
ter lugar o discurso que Santo Afonso de Ligório coloca como
exemplo no livro acima citado. Talvez ele parecerá um pouco
rígido a alguns delicados, mas fará um melhor efeito. Nas
obras de Santo Afonso não há nada que seja "digno de
censura", conforme declaração oficial da Igreja. Não
censuremos, pois, nem sequer esta. Obras deste teor deveriam
ser impressas em edições bem econômicas que pudessem com facilidade
ser dadas de presente.
Em quarto
lugar deveriam ser promovidas as pias uniões dos filhos e
filhas de S. Maria Imaculada já instituídas em vários lugares,
nas quais não se inscrevem senão os jovens e as jovens que
se propõem viver em virgindade, e têm uma regra muito apropriada
para conseguir no século a perfeição cristã, e para ajudar
no bem e na santificação do próximo.
Em quinto
lugar seria coisa muito útil juntar três ou quatro pessoas
de um e de outro sexo, separadamente, os quais se empenhassem
em erigir estas pias uniões onde não existissem, de conservá-las
onde existem, e de estendê-las a outros lugares, e, além disto,
conseguir algum subsídio para a impressão e difusão das obras
acima indicadas.
Finalmente,
porque todo bem há de ser esperado de Deus, deveria animar-se
as almas santas para que fizessem para este fim orações particulares,
e pedissem particularmente à Santíssima Virgem que olhe benignamente
e abençoe todas as tentativas que se fizerem para por em maior
honra, e fazer que venha abraçada e conservada por parte de
muitas almas a mais bela das virtudes, que uma santa chamou
em êxtase de o Paraíso na Terra.
Confio
que, dissipadas aquelas sombras de dificuldades que havia
em tua mente, queiras fazer-te tu também promotor e como que
apóstolo desta virtude.
Autor: José Frassinetti
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